Múltiplos de EBITDA: como se aplicam ao mercado português
O múltiplo de EBITDA é o atalho mais usado — e o mais mal usado — na avaliação de empresas. Como aplicá-lo sem enganar-se.
Por Tiago Marques · Atualizado a 03 de agosto de 2026 · 9 min de leitura
Quando um empresário ouve que «as empresas do setor vendem a cinco vezes o EBITDA», está a ouvir metade da informação. O múltiplo só significa alguma coisa quando se sabe a que EBITDA se aplica, o que está dentro do perímetro e como se passa do valor da empresa para o valor a receber pelos sócios.
O que é, exatamente, o EBITDA
EBITDA é o resultado operacional antes de depreciações, amortizações, juros e impostos. Serve como aproximação da geração de caixa operacional, independente da estrutura de financiamento e da política de investimento — e é por isso que permite comparar empresas diferentes.
A aproximação tem limites: uma empresa que precisa de reinvestir permanentemente em equipamento não gera o caixa que o EBITDA sugere. Em setores intensivos em capital, o comprador ajusta o múltiplo em baixa precisamente por isso.
Normalizar antes de multiplicar
O EBITDA contabilístico raramente é o EBITDA de referência numa transação. A normalização remove tudo o que não é recorrente nem operacional e repõe custos de mercado que hoje não estão nas contas.
- Remuneração dos sócios ajustada ao custo de substituição por um gestor profissional.
- Rendas de imóveis detidos pelos sócios ajustadas a valor de mercado.
- Despesas pessoais, viaturas e encargos não relacionados com a atividade.
- Proveitos e custos extraordinários: indemnizações, mais-valias, apoios pontuais.
- Efeitos não recorrentes de um ano atípico — para cima ou para baixo.
O que faz o múltiplo subir
O múltiplo é uma medida de risco e de crescimento esperado. Sobem-no os fatores que tornam os resultados futuros mais previsíveis e menos dependentes de uma pessoa.
- Receita recorrente ou contratualizada com prazo relevante.
- Carteira de clientes diversificada, sem concentração acima de 15–20%.
- Equipa de gestão que continua no negócio após a saída do sócio.
- Margens estáveis e histórico de crescimento consistente.
- Posição defensável: marca, licenças, tecnologia própria, custos de mudança.
De enterprise value a valor para o vendedor
Multiplicar o EBITDA dá o enterprise value — o valor da empresa livre de dívida e de caixa. O que o vendedor recebe é o equity value: enterprise value menos dívida financeira líquida, ajustado pela diferença entre o working capital efetivo à data do closing e o working capital normativo acordado.
É neste ajustamento que se decidem muitas negociações. Definir o working capital normativo cedo, com base em médias mensais de 12 meses, evita surpresas na fase final.
Três erros comuns
Primeiro: aplicar múltiplos de empresas cotadas a uma PME — as cotadas negoceiam com liquidez, escala e governação que a PME não tem. Segundo: usar o melhor ano em vez de uma média. Terceiro: esquecer que dívida a sócios, suprimentos, leasings e responsabilidades com pessoal entram no cálculo da dívida líquida.
Perguntas frequentes
- O múltiplo aplica-se ao EBITDA do último ano?
- Normalmente aplica-se ao EBITDA normalizado dos últimos doze meses, validado contra a média dos dois a três anos anteriores. Se o último ano for atípico, o comprador ajusta.
- Uma empresa com EBITDA negativo pode ser vendida?
- Pode, mas a avaliação deixa de assentar em múltiplos de EBITDA. Passa a basear-se em ativos, em múltiplos de receita ou no valor estratégico para um comprador específico.
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